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Editorial

EMAP em foco: aspectos da extensive macular atrophy with pseudodrusen no Brasil

EMAP in focus: aspects of extensive macular atrophy with pseudodrusen-like appearance in Brazil

Sung Eun Song Watanabe1; Carlos Augusto Moreira-Neto2,3

DOI: 10.17545/eOftalmo/2025.0007

A extensive macular atrophy with pseudodrusen-like appearance (EMAP), descrita inicialmente por Hamel et al. em 2009, vem sendo diagnosticada com frequência crescente na prática clínica brasileira, embora ainda permaneça subdiagnosticada, em especial devido à sua semelhança fenotípica com a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), sobretudo em pacientes mais idosos1.

A descrição clássica da EMAP inclui atrofia multilobulada do epitélio pigmentar da retina (EPR), frequentemente distribuída ao longo do eixo vertical, com predileção pela região perifoveal superior e relativa preservação foveal nas fases iniciais1-3. Associam-se a esses achados depósitos subretinianos tipo pseudodrusen no polo posterior, áreas de degeneração periférica tipo paving stone e início dos sintomas em idade mais precoce do que a DMRI clássica, geralmente entre a quarta e sexta décadas de vida.

Estudos mais recentes ampliaram significativamente o espectro estrutural da doença, descrevendo separação do EPR da membrana de Bruch, afinamento coroideano progressivo, rupturas da membrana de Bruch e desenvolvimento de neovascularização coroideana2,4. Do ponto de vista funcional, testes eletrofisiológicos demonstram comprometimento difuso da retina externa e interna, com alterações no eletrorretinograma de campo total e redução da resposta fotópica negativa, sugerindo envolvimento de fotorreceptores, células bipolares e ganglionares5,6.

Clinicamente, os pacientes com EMAP diferenciam-se tanto daqueles com DMRI quanto dos portadores de distrofias hereditárias da retina. A apresentação típica inclui perda visual progressiva e insidiosa, frequentemente acompanhada de dificuldade de adaptação ao escuro, discromatopsia e escotomas paracentrais. A acuidade visual central pode permanecer preservada por anos; contudo, uma vez estabelecido o acometimento foveal, a progressão visual tende a ser rápida e clinicamente impactante.

No Brasil, a EMAP foi inicialmente documentada em 2018, em um relato que descreveu a evolução clínica e estrutural de um paciente acompanhado por oito anos, contribuindo para o reconhecimento da entidade no contexto nacional7. Posteriormente, estudos brasileiros ampliaram essa observação, destacando particularidades epidemiológicas relevantes, sobretudo a elevada frequência de história prévia de febre reumática na infância8,9.

A febre reumática é uma doença inflamatória autoimune tardia desencadeada por infecção orofaríngea pelo Streptococcus pyogenes do grupo A, ainda responsável por significativa morbimortalidade cardiovascular em países em desenvolvimento10,11. Estimativas nacionais indicam que milhões de indivíduos permanecem em risco de desenvolver febre reumática após amigdalite estreptocócica, mantendo-se como importante problema de saúde pública no Brasil10.

Observa-se, em coortes brasileiras de pacientes com EMAP, história frequente de febre reumática associada ao uso prolongado de penicilina G benzatina como profilaxia secundária8,9. Embora essa associação não estabeleça relação causal, ela levanta a hipótese de um possível mecanismo imunomediado crônico subjacente. Até o momento, não há evidências de toxicidade retiniana direta relacionada ao uso prolongado da penicilina benzatina, sendo sua menção relevante como marcador indireto de exposição à febre reumática.

Algumas semelhanças conceituais podem ser traçadas entre a febre reumática e a retinopatia autoimune, incluindo a presença de mediadores inflamatórios elevados, curso crônico subclínico com exacerbações episódicas, ausência de marcadores diagnósticos específicos e dificuldade na avaliação objetiva de progressão e resposta terapêutica4,11,12. Nesse contexto, levanta-se a hipótese de que, em indivíduos geneticamente suscetíveis, o EMAP possa representar uma manifestação tardia de reação imunológica cruzada crônica após exposição prévia ao estreptococo do grupo A5. Corrobora essa hipótese a descrição prévia de alterações inflamatórias sistêmicas em pacientes com EMAP, como linfocitose, eosinofilia, elevação da velocidade de hemossedimentação e aumento de C3, sugerindo um estado inflamatório sistêmico ou alérgico subjacente2.

Avanços em imagem multimodal, incluindo retinografia panorâmica, autofluorescência e OCT de alta resolução, permitem diagnóstico mais preciso e melhor monitoramento estrutural. Os testes eletrofisiológicos são amplamente utilizados nas doenças retinianas e têm papel consolidado no diagnóstico e seguimento das retinopatias autoimunes, cujos padrões eletrofisiológicos variam conforme a associação paraneoplásica, presença de melanoma, forma não paraneoplásica e perfil de autoanticorpos antirretinianos13-15. Embora a literatura sobre essas entidades seja limitada pela raridade e complexidade diagnóstica, o EMAP compartilha diversas características clínicas com a retinopatia autoimune, como bilateralidade, perda visual progressiva indolor, nictalopia, discromatopsia, fotofobia e escotomas centrais e periféricos, frequentemente associados a doenças sistêmicas autoimunes.

Até o momento, não há consenso quanto à fisiopatogenia, fatores de risco ou tratamento modificador da doença. Na ausência de terapias específicas, o manejo clínico deve enfatizar o diagnóstico precoce, o acompanhamento estrutural e funcional rigoroso, o tratamento das complicações associadas, como a neovascularização coroideana, e a reabilitação visual.

O reconhecimento da EMAP como uma entidade distinta, potencialmente influenciada por fatores imunológicos sistêmicos prevalentes em países em desenvolvimento, reforça a necessidade de estudos prospectivos, análises genéticas e imunológicas e colaboração multicêntrica internacional, posicionando o Brasil como cenário singular e relevante para o avanço do conhecimento sobre essa doença.

 

REFERÊNCIAS

1. Hamel CP, Meunier I, Arndt C, ben Salah S, Lopez S, Bazalgette C, et al. Extensive macular atrophy with pseudodrusen-like appearance: a new clinical entity. Am J Ophthalmol. 2009;147(4):609–620.

2. Douillard A, Picot MC, Delcourt C, Lacroux A, Zanlonghi X, Puech B, et al. Clinical characteristics and risk factors of extensive macular atrophy with pseudodrusen: The EMAP Case-Control National Clinical Trial. Ophthalmology. 2016;123(9):1865–1873.

3. Antropoli A, Bianco L, Condroyer C, Antonio A, Navarro J, Dagostinoz D, et al. Extensive Macular Atrophy with Pseudodrusen-like appearance: Progression kinetics and late-stage findings. Ophthalmology. 2024;131(10):1175-1184.

4. Antropoli A, Bianco L, Romano F, Trinco A, Arrigo A, Benadji A, et al. Extensive macular atrophy with pseudodrusen-like appearance (EMAP) clinical characteristics and diagnostic criteria, and insights from allied inherited retinal diseases and age-related macular degeneration. Prog Retin Eye Res. 2025 Jan:104:101320.

5. Watanabe SES, Quercia AZF, Sacai PY. Electrophysiological findings in extensive macular atrophy with pseudodrusen. Doc Ophthalmol. 2023;147(2):121-130.

6. Watanabe SES, Quercia AZF, Assis GPSM, Borges ML, Sacai PY. Ganglion cell function loss in extensive macular atrophy with pseudodrusen. Int Ophthalmol. 2025;45(1):338.

7. Moreira-Neto CA, Moreira Júnior CA. Extensive macular atrophy with pseudodrusen-like appearance resembling atrophic age-related macular degeneration: a fully documented eight-year clinical history. e-Oftalmo. 2015;1(3):1-7.

8. Moreira-Neto CA, Andujar RAS, Chao JCT, Vasconcelos H, Alves FEE, Rodrigues GD, et al. Rheumatic fever and long-term use of benzathine penicillin as possible risk factors for extensive macular atrophy with pseudodrusen in a Brazilian cohort. Int J Retina Vitreous. 2024;10(1):75

9. Audi LO, Carvalho RAP, Casella AM, Maniero LAH, Zett C, Messias AMV, et. al. Visual outcomes and clinical features of extensive macular atrophy with pseudodrusen. Retina. 2025;45(10):1842-1853.

10. Leão SC, Lima MRM, Nascimento HM, Octacilio-Silva S, Rodrigues TMA. IL-10 and ET-1 as biomarkers of rheumatic valve disease. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2014;29(1):25-30.

11. Oliveira SG, Marossi LM, Spaziani AO, Frota RS, Filho LSG, Monteiro STF, et al. Epidemiologia da doença reumática crônica cardíaca no Brasil nos anos de 2014 a 2018. Braz J Health Rev. 2020;3(1):857-872.

12. Grange L, Dalal M, Nussenblatt RB, Sen HN. Autoimmune retinopathy. Am J Ophthalmol. 2014;157(2):266-272.e1.

13. Azevedo PM, Pereira RR, Guilherme L. Understanding rheumatic fever. Rheumatol Int. 2012;32(5):1113-20.

14. Braithwaite T, Vugler A, Tufail A. Autoimmune retinopathy. Ophthalmologica. 2012;228(3):131-42.

15. Canamary AM Jr, Takahashi WY, Sallum JMF. Autoimmune retinopathy: a review. Int J Retina Vitreous. 2018 Jan 3:4:1.

 

INFORMAÇÃO DOS AUTORES

Financiamento: Declaram não haver.

Conflitos de interesse: Declaram não haver.

Recebido em: 26 de Janeiro de 2026.
Aceito em: 30 de Janeiro de 2026.


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