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Editorial

Quando o olhar feminino assume a liderança na oftalmologia Brasileira

When the feminine perspective takes the lead in Brazilian ophthalmology

Fernanda Belga Ottoni Porto1,2

DOI: 10.17545/eOftalmo/2024.0020

Neste ano histórico, a presidência do CBO é assumida, pela primeira vez, por uma mulher: Dra. Wilma Lelis. Sua presença, firme e ética, representa mais do que uma conquista individual — simboliza décadas de resistência silenciosa de milhares de mulheres que percorreram, muitas vezes à margem, os corredores dos congressos, os plantões, os laboratórios e as salas cirúrgicas da oftalmologia brasileira.

O campo médico, e a oftalmologia não é exceção, ainda carrega as marcas profundas de uma estrutura que por muito tempo desconsiderou ou minimizou a presença feminina. Hoje, somos maioria nas salas de aula das escolas médicas, mas não nos cargos de chefia, nas cadeiras acadêmicas mais altas, nas comissões decisórias, nem nos palcos dos grandes eventos científicos. A ascenção de uma mulher na presidência do nosso Conselho é, portanto, um marco que nos convoca à reflexão e à necessária reconstrução de caminhos.

 

As mulheres na medicina: avanços e barreiras persistentes

A feminização da medicina é um fenômeno em curso, porém ainda desigual. Embora mulheres representem mais de 50% dos novos registros profissionais no Brasil, sua trajetória rumo a posições de liderança permanece marcada por barreiras invisíveis — e outras bastante concretas.

Mulheres são menos promovidas a cargos diretivos, recebem salários inferiores aos dos colegas homens mesmo com formação e produtividade similares, e seguem sub-representadas em especialidades cirúrgicas e em espaços de liderança científica. A desigualdade se intensifica quando recortada por raça: mulheres negras e indígenas enfrentam discriminação cumulativa e menor acesso a oportunidades.

Um estudo do New England Journal of Medicine demonstrou que médicas têm 21% menos chance de alcançar posições de professor titular em universidades norte-americanas, mesmo com produtividade acadêmica equivalente1. Já uma análise do The Lancet identificou diferenças salariais de até 33% entre gêneros no sistema público de saúde britânico2. No Brasil, dados do CFM mostram que, apesar da presença numérica crescente, as médicas continuam a receber menos e a ocupar menos espaços de liderança3.

 

A oftalmologia: um espelho da desigualdade

A oftalmologia, especialidade que exige precisão técnica e atualização constante, ainda se estrutura como um ambiente predominantemente masculino, sobretudo em áreas cirúrgicas e cargos decisórios.

Quantas vezes uma mulher é a única palestrante em uma mesa científica? Quantas vezes é convidada para moderar — mas não para liderar? Quantas médicas oftalmologistas são lembradas para ocupar conselhos editoriais, bancas de premiação, coordenação de cursos?

A transformação não virá automaticamente com o tempo. Ela exige intencionalidade, ação institucional e políticas que promovam equidade. A presença da Dra. Wilma Lelis à frente do CBO não deve ser celebrada como exceção admirável, mas como o início de um novo ciclo, no qual mulheres ocupem naturalmente os centros de decisão — assim como já ocupam com excelência os consultórios, ambulatórios e salas de aula.

 

Equidade não é favor, é qualidade em saúde

Diversos estudos mostram que a diversidade de gênero na medicina melhora a qualidade do cuidado. Um artigo publicado na JAMA Internal Medicine demonstrou que pacientes idosos hospitalizados sob cuidados de médicas apresentam menor mortalidade e menores taxas de reinternação4. A equidade, portanto, não é apenas justa — ela é estratégica para melhores desfechos assistenciais.

 

Seguimos: com clareza, técnica e coragem

Não buscamos elogios protocolares, nem espaços simbólicos. Buscamos reconhecimento da competência, oportunidades iguais, redes de apoio, ambientes seguros e livres de assédio, e possibilidades reais de ascensão acadêmica e científica.

A história da medicina será mais justa quando nossos nomes deixarem de ser exceção e passarem a ser presença constante. Quando a liderança feminina não for manchete, mas rotina.

Às mulheres que abriram caminho enfrentando silêncio, exclusão e machismo estrutural, nossa profunda gratidão.

Às médicas oftalmologistas de hoje e de amanhã, nossa responsabilidade de seguir — com coragem, propósito e compromisso com as que virão.

 

REFERÊNCIAS

1. Jena AB, Khullar D, Ho O, Olenski AR, Blumenthal DM. Sex Differences in Academic Rank in US Medical Schools in 2014. JAMA. 2015;314(11):1149-58.

2. Woodhams C, Dacre J, Parnerkar I, Sharma M. Pay gaps in medicine and the impact of COVID 19 on doctors' careers. Lancet. 2021;397(10269):79-80.

3. Conselho Federal de Medicina (CFM). Demografia Médica 2020. https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sgtes/acoes-em-educacao-em-saude/cfm-e-usp/07-relatorio-demografia-medica-no-brasil_2020-5.pdf

4. Tsugawa Y, Jena AB, Figueroa JF, Orav EJ, Blumenthal DM, Jha AK. Comparison of Hospital Mortality and Readmission Rates for Medicare Patients Treated by Male vs Female Physicians. JAMA Intern Med. 2017;177(2):206-213.

 

INFORMAÇÃO DO AUTOR
» Fernanda Belga Ottoni Porto
https://orcid.org/0000-0002-4308-1766
http://lattes.cnpq.br/3705547122177092

Fonte de financiamento: Declara não haver.

Conflito de interesses: Declara não haver.

Recebido em: 12 de Julho de 2024.
Aceito em: 19 de Julho de 2024.


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